Ciclismo de estrada no Atlas marroquino: um guia completo
O Atlas marroquino oferece aos ciclistas de estrada uma combinação incomum: passos de altitude, clima quente e quase nenhum trânsito. Este guia cobre rotas, temporada, preparo físico e a lógica de pedalar para o sul a partir de Marrakech.
O Alto Atlas marroquino é a espinha dorsal do interior do país e se estende por cerca de 450 quilômetros de nordeste a sudoeste. Os picos mais altos ultrapassam 4.000 metros, mas a malha rodoviária cruza a cordilheira por uma série de passos bem conservados, dos quais o Tizi n'Tichka, a 2.260 metros, é o mais acessível de bicicleta. O contraste entre Marrakech, no sopé da cordilheira, e o cume corresponde a aproximadamente 2.100 metros de subida ao longo de cerca de 75 quilômetros de asfalto. Poucas cordilheiras no mundo ficam tão perto de uma cidade, e menos ainda oferecem uma escalada dessa dimensão que parte de um ambiente urbano e termina no silêncio das alturas, acima do limite das árvores.
A rodovia N9, de Marrakech a Ouarzazate, é a principal rota de ciclismo e a que inclui o cume do Tizi n'Tichka. A estrada é asfaltada em toda a extensão, bem conservada para os padrões marroquinos, e recebe uma mistura de caminhões, veículos de turismo e ônibus. O trânsito é administrável, não pesado, e nas primeiras horas da manhã a estrada costuma ficar quase vazia. O piso é confiável para bicicletas de estrada, embora alguns trechos perto do cume tenham remendos e reparos que uma configuração gravel ou de pneus largos enfrenta com mais conforto. A maioria dos ciclistas vence a subida de Marrakech até o passo em quatro a seis horas, conforme o preparo e as paradas.
Uma segunda opção é o Tizi n'Test, a oeste de Marrakech, um passo a 2.092 metros mais longo, menos percorrido e consideravelmente mais remoto. A rota do Test oferece uma estrada mais estreita, trechos mais íngremes e quase nenhum serviço além dos povoados maiores. Para ciclistas de estrada experientes essa solidão é uma vantagem. Para quem pedala sem apoio, o isolamento exige mais autossuficiência. O Test é melhor deixar para uma segunda visita ou para grupos com um veículo acompanhando. Para uma primeira travessia do Atlas, a rota do Tichka é a escolha natural.
A temporada pesa mais no Atlas do que em muitas cordilheiras europeias. A neve fecha ou restringe os passos altos entre dezembro e fevereiro, e os meses de transição de novembro e março podem trazer gelo no começo da manhã mesmo quando a tarde é limpa. As janelas mais confiáveis para pedalar vão de março a maio e de setembro a novembro. A primavera traz flores silvestres e vales verdes, mas às vezes tardes instáveis. O outono oferece condições mais secas e mais constantes, com temperaturas mais baixas na altitude do que no verão. Julho e agosto são quentes nos vales e mornos no passo, o que alguns ciclistas preferem, mas o calor em Ouarzazate e no planalto que antecede o Sahara, lá embaixo, pode ser castigador.
As exigências de preparo físico são realistas, não de elite. O Tizi n'Tichka é uma subida de categoria 1 pelos padrões de classificação europeus. É longa e sustentada, mas não íngreme, com inclinações médias em torno de quatro a seis por cento na maior parte da escalada. Um ciclista acostumado a provas cicloturísticas ou alguém que sobe com regularidade passos alpinos ou pirenaicos vai achá-la confortável em ritmo moderado. Quem está voltando a pedalar ou não está habituado a subidas sustentadas de várias horas deve acumular algumas semanas de trabalho progressivo em subida antes de encarar o desafio. O calor e a altitude juntos exigem mais do que a inclinação sozinha, e chegar bem preparado importa mais do que chegar em forma para uma prova plana.
A descida da vertente sul do Tichka em direção a Ouarzazate é rápida, longa e tecnicamente envolvente. A estrada cai de 2.260 metros para cerca de 1.100 metros ao longo de aproximadamente 50 quilômetros de curvas fechadas e curvas abertas. O piso é bom, mas a inclinação lateral das curvas varia em qualidade, então levar velocidade para dentro de curvas desconhecidas exige atenção. A vista se abre conforme a altitude cai, e a paisagem muda do terreno alpino rochoso para os ocres e terracotas quentes do planalto que anuncia o Sahara. Ouarzazate fica no vale abaixo e marca a transição do Atlas para o sul.
Depois de Ouarzazate a rota segue para leste pela Route des Kasbahs, uma ampla estrada de vale que acompanha os rios Dadès e Draa através de uma sequência de fortalezas de adobe, palmeirais e terraços de rosas. Este trecho é mais fácil de pedalar do que a subida, com longas retas planas e ondulações suaves. A inclinação é administrável e as distâncias entre as cidades são regulares. É o segmento de recuperação de uma rota de vários dias: permite que as pernas se soltem depois do esforço do passo e que o corpo se acomode ao calor diferente e à altitude mais baixa do sul.
A logística de uma viagem de ciclismo pelo Atlas é mais simples do que muitos ciclistas imaginam. Marrakech tem várias lojas de bicicleta de qualidade e uma comunidade crescente de guias de ciclismo e operadores de apoio. Há hospedagem ao longo da rota de Marrakech a Ouarzazate na maioria dos povoados, e o próprio passo tem um pequeno café no cume. Depois de Ouarzazate a infraestrutura rareia, e planejar a hospedagem com antecedência para as etapas do desfiladeiro do Dadès e do vale do Draa ganha importância. Um veículo de apoio não é essencial para a travessia do Tichka, mas muda substancialmente a experiência em uma rota de várias etapas rumo ao sul.
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