Cinco Praticantes, um Território: o que o Conhecimento Incorporado Produz
Fotógrafa, coach de yoga, contadora amazigh, músicas, terapeuta de rosas. O que distingue o conhecimento transmitido oralmente ao longo de gerações do conhecimento certificado. E o que a diversidade de saberes femininos produz num grupo de mulheres em retiro.
Existe uma distinção epistemológica fundamental entre o conhecimento certificado e o conhecimento incorporado, uma distinção que a academia ocidental reconhece em teoria mas que os sistemas de saúde e bem-estar resistem a operacionalizar na prática. O conhecimento certificado é transferível, documentável, verificável por terceiros e escalável: posso aprender massagem tailandesa num curso de 200 horas em Bangkok ou em Lisboa e obter a mesma certificação. O conhecimento incorporado é o que a terapeuta da cooperativa do Dadès tem quando coloca as mãos numa região do ombro que nenhum manual localiza com esse nome mas que ela reconhece por toque, porque a mãe dela reconhecia, porque existe uma taxonomia somática feminina do corpo transmitida na língua tachelhit que não tem equivalente nos sistemas de classificação ocidentais. Nenhuma das duas formas de conhecimento é superior. A questão é qual delas está presente no retiro.
A fotógrafa documentarista que acompanha os retiros femininos Umnya não fotografa para as redes sociais. Fotografa para o arquivo, o conjunto de imagens que os participantes recebem e que é também um documento externo da transformação interna. A investigação sobre memória autobiográfica e processamento emocional documentou que ter imagens de um período de mudança significativa facilita a integração dessa mudança no mês e no ano seguintes: o cérebro usa as imagens como âncoras para os estados de que precisa lembrar. A diferença entre uma fotografia encenada e uma fotografia documentada é a diferença entre uma imagem que confirma como queremos parecer e uma imagem que captura o que realmente aconteceu, o rosto ao amanhecer antes de qualquer expectativa social, as mãos na argila quando a atenção está completamente no tacto, a postura quando o corpo já não sabe que está a ser observado.
A coach de yoga especializada em perimenopause e longevidade feminina traz uma competência específica que os retiros generalistas raramente têm: a compreensão das flutuações hormonais do eixo HPA durante a transição menopáusica e a forma como essas flutuações interagem com práticas de movimento intenso, com o stress oxidativo de altitude e com a privação parcial de sono que o fuso horário e a novidade do ambiente produzem. A diferença entre Ashtanga standard e Yoga Terapêutico adaptado à perimenopause não é de intensidade mas de direção: algumas práticas de activação simpática que produzem resultados positivos em mulheres em idade fértil têm efeitos contraproducentes em mulheres com flutuações de estrogénio e progesterona em curso. Ter alguém que sabe essa distinção não é um luxo de nicho. É o básico que a maioria dos retiros não oferece.
A contadora amazigh do Anti-Atlas representa uma forma de transmissão cultural que a UNESCO classifica como Património Imaterial em risco, não porque ninguém valorize as histórias, mas porque a cadeia de transmissão oral exige presença física e tempo em conjunto que as condições contemporâneas de vida não facilitam. As narrativas que ela partilha nas noites de retiro, em tachelhit com tradução simultânea, não são folclore decorativo. São arquivos de estratégias adaptativas: histórias de mulheres que fundaram sistemas de gestão de água no Anti-Atlas, que construíram redes de comércio interregional, que negociaram com caravanas trans-saarianas. A investigação sobre narrativa e processamento emocional (em particular o trabalho de Antonio Damasio sobre emoção somática e a sua função na tomada de decisão) sugere que histórias de protagonistas com quem partilhamos características de identidade ativam os mesmos circuitos neurais que as nossas próprias memórias autobiográficas, o que torna as narrativas de mulheres amazighes não um entretenimento etnográfico mas uma forma de ampliar o repertório de estratégias disponíveis na memória implícita.
O que cinco praticantes com competências radicalmente diferentes produzem num grupo de oito a doze mulheres em retiro é algo que nenhuma praticante poderia produzir sozinha: uma cobertura de modalidades que inclui documentação visual, movimento consciente adaptado à biologia feminina específica, narrativa oral de longa transmissão, sincronização musical coletiva e terapia somática com substâncias botanicamente ativas. Cada modalidade acede a sistemas neurais diferentes. A fotografia acede à memória explícita e à identidade. O yoga acede ao sistema nervoso autónomo e à propriocepção. As histórias amazighes acedem à memória implícita e à identidade cultural. O ahouach acede ao sistema de ligação social via sincronização motora. A massagem de rosas acede ao sistema nervoso periférico e à interoceptividade. Um retiro que inclui todas as cinco modalidades durante oito dias não é mais longo do que um retiro de yoga. É funcionalmente diferente, porque o que integra é a experiência completa de estar num corpo feminino, não apenas uma das suas dimensões.