Umnya
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Astrophotography·8 min read·2026-07-01

Retiro de Fotografia no Marrocos: Por que a Cidade Azul, o Porto Branco e o Deserto Mudam a Forma de Ver

Há três lugares no Marrocos onde a luz se comporta de forma suficientemente diferente para reestruturar a maneira como um fotógrafo vê. Chefchaouen, Essaouira e o Saara. Oito dias pelos três, sem a câmera do telefone.

A diferença entre fotografia com smartphone e fotografia com câmera dedicada não é técnica, é atencional. Mihaly Csikszentmihalyi, psicólogo húngaro-americano da Universidade de Chicago, descreveu o estado de flow como uma condição que exige um equilíbrio preciso entre desafio e habilidade, sustentada por atenção não dividida durante períodos prolongados. A câmera dedicada, com seu disco de abertura, seu seletor de velocidade, seu botão de foco manual, cria fricção intencional que força esse equilíbrio. O smartphone elimina a fricção e, com ela, a condição para o flow. Todo fotógrafo que fez a transição de smartphone para câmera descreve a mesma mudança subjetiva: o tempo se expande. Uma cena que seria capturada em dois segundos com o telefone exige dois minutos com a câmera, espera pela luz, escolha do enquadramento, decisão sobre a profundidade de campo. No retiro de fotografia da Umnya, todos os smartphones são recolhidos na chegada e guardados num cofre até o último dia. Esta não é uma preferência estética. É um requisito para o estado de atenção que o programa pretende produzir.

Chefchaouen existe numa bacia topográfica que orienta a maioria de suas vielas em direção ao norte-nordeste, o que tem uma consequência fotográfica específica: ao longo de grande parte do dia, a luz solar direta não penetra nas ruas mais estreitas da medina, e o que o fotógrafo encontra é luz refletida, luz que ricocheteou nas paredes caiadas de azul antes de iluminar um rosto, uma porta, um gato adormecido sobre um parapeito. Luz refletida é luz suavizada, e suavizada de uma cor: o azul de Chefchaouen não é uma decoração arbitrária. A comunidade judaico-andaluza que se estabeleceu na cidade após a expulsão de 1492 introduziu a tradição de pintar as superfícies de azul, uma cor associada, no simbolismo sefardita, à divindade e ao céu, e a prática se consolidou ao longo de séculos até se tornar a identidade visual da cidade. Eugène Delacroix, que percorreu o norte do Marrocos em 1832, não chegou a Chefchaouen, mas documentou em seus diários a qualidade peculiar da luz marroquina refletida em superfícies brancas e azuis, uma qualidade que influenciaria seu uso subsequente de tons frios em sombras. Os horários ótimos para fotografar na medina são as duas horas após o nascer do sol e a hora antes do pôr do sol: nesses momentos, um fio de luz dourada penetra pelas entradas das vielas e cria um contraste entre a sombra azul e o calor da luz direta que não existe em nenhuma outra condição.

Essaouira apresenta um problema fotográfico diferente e igualmente específico: a Corrente das Canárias. Esta corrente oceânica fria, que corre para sul ao longo da costa atlântica marroquina desde as ilhas Canárias até a Mauritânia, mantém a temperatura da superfície do mar entre 16 e 20°C mesmo no verão, gerando uma evaporação reduzida e, como consequência, uma camada de ar marinho com partículas de sal e umidade que difunde a luz de uma forma que os fotógrafos de moda e cinema procuram ativamente, é a mesma qualidade de luz que trouxe produções internacionais para a cidade, incluindo a filmagem de Orson Welles para Otelo em 1952, cujas ruínas da cisterna onde Welles filmou a cena de estrangulamento de Iago são visitáveis hoje. As muralhas portuguesas do século XVI, construídas pelo arquiteto Cristóvão de Frias a pedido do sultão Mohammed al-Sheikh, oferecem três superfícies fotográficas distintas: a face oceânica, batida pelo spray e coberta de líquen laranja, de frente para a luz ocidental; a face interior, voltada para o porto e os barcos de pesca azuis, recebendo luz refletida da água; e o topo dos baluartes, onde a luz atlântica chega sem filtro. O vento de Essaouira, alizeu constante que sopra entre 25 e 35 km/h durante seis meses do ano, não é um obstáculo fotográfico mas um elemento a incluir: as djellabas que se movem, os cabelos soltos, as bandeiras dos barcos.

O Saara, para um fotógrafo, é um estudo em geometria da luz. Em Erg Chigaga, localizado a aproximadamente 29,9939° N de latitude, a hora dourada, o período entre o nascer do sol e 45 minutos depois, e entre 45 minutos antes do pôr do sol e o ocaso, produz uma condição específica: a luz solar rente ao horizonte atravessa uma espessura máxima de atmosfera, filtrando os comprimentos de onda azuis e deixando apenas o espectro vermelho-laranja, ao mesmo tempo que as cristas das dunas criam sombras que revelam a estrutura tridimensional do erg em detalhe impossível ao meio-dia. Fotografar no Saara entre as 10h e as 15h é fotografar uma superfície plana; fotografar na hora dourada é fotografar um relevo. Para a astrofotografia, o mesmo local apresenta uma segunda janela de trabalho: após a queda do crepúsculo astronômico (quando o sol está a mais de 18° abaixo do horizonte), o horizonte de Erg Chigaga oferece um campo visual sem obstáculos em 360°, uma magnitude limitante superior a 6,5 e uma Via Láctea que se levanta do horizonte sul com a clareza que as fotografias publicadas raramente conseguem capturar porque raramente foram tiradas num local com este grau de isolamento da poluição luminosa. David Malin, astrofotógrafo australiano do Observatório Anglo-Australiano conhecido por desenvolver técnicas de revelação de nebulosas em filme de baixa velocidade, descreveu a relação entre escuridão do céu e percepção visual de estrutura estelar com uma frase que resume o que os participantes descobrem na segunda noite no Saara: 'O céu que você vê com os olhos adaptados é mais rico do que qualquer imagem que você irá capturar.'

A estrutura das oficinas segue uma lógica que contraria o instinto de acumulação que a câmera de smartphone treinou. Cada manhã começa com uma saída fotográfica de três a quatro horas guiada por um fotógrafo documentarista: o guia não dá instruções sobre o que fotografar, mas sobre quando parar, quando ficar num ponto por mais tempo do que parece confortável, quando esperar que a luz mude em vez de capturar a luz que está disponível agora. À noite, cada participante seleciona três imagens do dia. Não vinte. Não as melhores vinte, três. A restrição é deliberada: ela força uma hierarquia de julgamento que o smartphone tornou desnecessária. Kevin Kelly, co-fundador da Wired, descreveu o excesso de escolha digital como 'a tirania da abundância de opções', e a seleção forçada de três imagens por dia durante oito dias produz uma pedagogia implícita sobre o que constitui uma imagem forte que nenhuma instrução explícita consegue substituir. No último dia, os telefones são devolvidos juntamente com uma prova de contato impressa dos dez melhores fotogramas de cada participante, selecionados pelo fotógrafo guia sem que o participante saiba quais serão. O que a maioria dos participantes relata nesse momento é revelador: em nenhum caso as imagens que o guia selecionou são as que o participante teria escolhido. Oito dias de olhar intencional não garante que você sabe o que está vendo, mas garante que você começa a entender a diferença.